Depoimento sobre o Morro das Balas

Depoimento do Sr. Francisco Cravo Filho, nascido a 22.02.1945, filho de Francisco da Silva Cravo, nascido em 1911 e falecido em julho de 1961, residente em Formiga há 45 anos. Antes, morava com a família na região do Morro das Balas.

Sobre Luanda, disse que, “segundo a história de meus pais, dos meu avós, Luanda era propriedade de uma pessoa só; era um senhor dono de muitas coisas, então ele tinha muitos escravos; na época ele conseguiu circular a fazenda dele com um valo; ela era toda cercada de valo; ainda tem marcas desses valos; você encontra em alguns pontos as marcas dos valos; nem em toda a região, pois muitos com o tempo vai enchendo; com uma fotografia aérea pode dar para perceber, confirmou”.

Sobre o Morro das Balas, Francisco Cravo Filho disse-nos: “Meu pai, no Morro das Balas era uma espécie de líder; era uma pessoa que todo mundo... morria uma pessoa, nós é que fazíamos o caixão, nós é que tomávamos a iniciativa para trazer para enterrar; quando tinha uma festa, nós éramos os violeiros, os cantores; quando tinha um terço, nós rezávamos o terço; e que na época do cruzeiro, o meu pai também era carpinteiro; meu pai era carapina, pois naquele tempo não se falava carpinteiro; nós arrumamos duas aroeiras, sabe, lá nós tínhamos um campo de bola encostado ao cruzeiro; meu pai arranjou duas serras de madeira, apoiou aquelas duas peças, lavrou, e a gente lá olhando. O outro cruzeiro, ele estava assim muito podre, madeira muito antiga, às vezes sem qualidade, porque senão não tinha acabado. Meu pai pediu ao pessoal; perfurou um buraco enorme; fizemos o cruzeiro com uma distância de 500 metros do outro cruzeiro; na média de 22 homens, no dia, estavam lá; eu tenho esta lembrança... para que se conseguisse colocar o cruzeiro; que, na época, era uma madeira verde, muito pesada; aí, colocaram cada um uma parte do cruzeiro e foram levando; chegando lá... eu me esqueci... tinha um senhor chamado José do Tejado (?)... quando o cruzeiro foi... já... ele assustou tanto que saiu do ombro dele... ele saiu correndo... correu quase 500 metros de distância... e o pessoal rindo dele... aí, todo mundo pôs ele (o cruzeiro) em pé... deram uma socada em volta dele... e está lá até hoje.

O cercado do cruzeiro foi feito na época em que lá existia um rezador chamado Severino... até é tio da minha mãe. Ele foi quem pediu para cercar aquilo ali. De vez em quando eu ai lá para limpar o cruzeiro... uma vez até uma jararaca me pegou nesse lugar... uma cobrinha... já existia o cercado.

Teve até uma parte interessante dele (do rezador Severino)... nos dias do primeiro terço, ele muito empolgado... “gente vamos ajuntar aqui e rezar o terço...” e tal... a hora em que ele começou “Pai Nosso”, um cachorro veio por trás dele e esbarrou... ele disse assim: “Pai Nosso... sai cachorro!”... e ninguém rezou mais... virou só brincadeira...”.

Sobre as lajes de pedra que há no chão, dentro e fora do cercado do cruzeiro,  Francisco Cravo Filho disse que não são naturais do Morro das Balas... “Não é natural, não... foi levado para lá... aí já não lembro quem levou... quando fincaram o cruzeiro novo, não havia lá essas lajes...”.

Francisco disse que nunca vira lá no Morro das Balas o famoso urubu que está sempre pousado no cruzeiro.

Sobre o nome “Morro das Balas”, Francisco revelou-nos que “no tempo dos meus avós, a gente não tinha muita coisa que fazer lá, né... então enchia um bornal de pedras... estilingue e bodoque na mão, sabe... e ia fazer caçada... então... alguém contou para eles que esse nome foi dado por causa das pedras redondas... pedra redondinha... pedra-ferro, né... pedra dura pra caramba... batia no passarinho... ele não escapava vivo...”.

Francisco Confirmou que morou na região do Morro das Balas até quando tinha oito anos de idade... e que “um pouco depois eu vim para Formiga... foi mais ou menos nessa época que a gente estava lá morando...”.

Sobre a cruz velha, que foi substituída por volta de 1953, Francisco Confirmou que a cruz velha “deveria ter 150 anos pra lá... porque... a madeira dela eu não tenho uma lembrança mais... mas, naquele tempo, ninguém faria uma cruz a não ser de uma madeira boa... de boa qualidade... madeira de lei... então, deveria ser aroeira também... aquele lá (o atual cruzeiro) que ele já está começando a ficar solto(?)... quer dizer, falei cinqüenta aquele lá, né... e o outro era muito mais velho... o outro já estava todo podre... todo acabadinho... devia ser muito mais velho...”.        

O sr. Francisco, ao final, disse-nos ter gostado muito de falar sobre o Morro das Balas, local onde nasceu; onde, quando menino, achava ser lá o centro do mundo... por ser uma região alta; onde as pessoas se sentem envolvidas por uma agradável e misteriosa energia.

Pessoalmente, nas quatros vezes em que estivemos no Morro das Balas, realmente, sentimos algo assim... como disse o Sr. Francisco.

Eram 11 horas do dia 24.07.2003, quando nos despedimos do Sr. Francisco, em sua residência na cidade de Formiga, e seguimos viagem.

Tarcísio José Martins

José Eustáquio Souza

Mark Gerald Martins

Nicolas Barbosa Vieira Martins Basílio.     

 

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