QUILOMBO DO CAMPO GRANDE

LADRÕES DA HISTÓRIA


PREFÁCIO

                   Dr. Marco Aurélio Baggio (*)

Tarcísio José Martins trabalha denodadamente para recuperar a memória dos vencidos ao longo da História do Brasil.
Tarcísio tomou para si, a peito, fazer o tempo retroceder e assim desvelar a revivificação de um todo dantesco que aconteceu antes.
Movido pela bemächtigunstrib, pela pulsão da busca, pulsão epistemofílica, Tarcísio embrenha-se pelos sertões das Minas e dos Gerais, numa volúpia investigatória para pesquisar documentos, arquivos, quesitos e livros, agora facilitados e disponíveis pela nanotecnologia eletrônica do silício.
Como minerador, Tarcísio surpreende-se com as descobertas imbuídas no emaranhado dos interesses pessoais dos poderosos reinóis de então, ao defender e entretecer suas patranhas, com o objetivo de se enaltecer e de se locupletar de oportunidades e, até, de não feitos que a si atribuem.
Ao debruçar-se lá atrás, no que nossos homens maus fizeram, no que deixaram documentado, construído, deturpado, cultivado e imposto como (má/falsa) verdade histórica que lhes era e foi conveniente, Tarcisio se escandaliza com uma outra História monumental, porém escabrosa e falaciosa, que compõe em doido doído bailado da vida dos homens.
O trabalho concernido de Tarcísio, nesta imersão convicta, nesta reampliação da consciência histórica de nosso povo mineiro, ilumina a História dos modos de proceder das gentes e dos poderes exercidos.
Minas é a pedra de toque, o fecho da abóbada de um arquipélago que, desde 1670-1700, desde Minas, denominamos Brasil. Foi aqui, na ganância ávida da busca do ouro e do diamante, movendo os homens a arrostar uma natureza inóspita e indiferente, que negros africanos escravizados, emboabas, paulistas e brasileiros de diferentes ilhas litorâneas se jungiram, se amalgamaram e forjaram uma sociedade. E essa, como tal, imperfeita, injusta, que se tornou perenemente provisória.
A riqueza facilmente aflorada desperta o melhor que os homens são capazes de arquitetar.
O homem é paradoxal. Possui uma outra folha, como dobradiça, uma outra face, menos nobre. A riqueza desperta a usura e aciona os maus instintos paranoides dos ricos.
O homem é um ser dilacerado por seus paradoxos, por suas ‘crenças rachadas’: Bom x mau; certo x errado; justo x injusto; generoso x maligno; afetivo x cognitivo; secular x sagrado; verdade x mentira; feito/malfeito/não feito.
Deus nunca é parâmetro compassivador suficiente. Modera, mas não prepondera.
O diabo vige na rua, no redemoinho dos interesses e das paixões.
Inclina-se o néscio, o pobre e o sábio a cabeça, baixa a guarda moral, estendem as mãos para tocar e reter o imbecil dourado (o dinheiro, o ouro) e a fria pedra brilhante.
O dinheiro, a Fortuna, é o máximo articulador comum das relações entre os homens.
E de que adianta exclamar, com Shakespeare, na boca deTimão de Atenas:
Vamos, poeira maldita, prostituta comum da humanidade, que a discórdia entre as nações introduzes, vou fazer-te voltar a ser o que és.
Tempera-os bem com tuas horas lúbricas, deixando prontos todos os escravos para os banhos de estufa; a mocidade de faces róseas leva à dieta extrema da cura pela fome.
Aqui, nos sertões dos Goitacás, no centro alteroso descampado do interior, numa terra onde se deu a maior corrida do ouro, até então: 1696, nos vales dos rios das Mortes e das Velhas, aflorou uma civilização subsidiária à de Portugal e da Europa. Surgiram as nossas sete esplendorosas Vilas do Ouro. Do nada se fez cultura, sobrados, igrejas, monumentos, estradas, transações e tramoias. Estado, no total.
Século XVIII: 1701-1800. O branco mandava e escravizava o preto africano, iniquamente roubado de seus pagos na África, pelos tenebrosos navios negreiros. Comércio de gente sob as benções dos escotomas da cristandade.
Ouro, espada, fé, crença e poder e conveniência foram a têmpera que construiu a glória das minas para El-Rey, também para seus súditos, em nome de sua divindade, seu Deus. O homem, por sua vez, é um deus desonesto, falível, precário, mortal. Nega tudo isso, tornando-se façanhudo e temerário. Bandeirante e bandeiroso.
Toda ação coercitiva do poder gera reação defensiva do oprimido. Escravos fugiam das datas, das minas, das grupiaras. E, longe, se agruparam com brancos pobres, todos fugindo das capitações, espoliadora forma de tributação imposta pelo governador Gomes Freire de Andrade, a partir de 1735. Os deserdados e excluídos foram se estabelecendo em comunidades. De início, precárias. Logo, mais organizadas. Quilombos. União. Povoação. Fortificadas.
Tarcísio assume o resgate da História do fenômeno social e histórico dos quilombolas mineiros.
E descobre, com espanto e vivacidade e convicção, a enorme importância do Quilombo do Campo Grande, localizado na região de Formiga, Cristais e Aguanil, em Minas Gerais.
Foi no conflito, e na adversidade, em meio a iniquidades do poder central português e às injustiças do poder local exercido sobre os brancos pobres, sobre os mulatos e para cima dos negros escravizados que, aqui, nesse cadinho de povos e de interesses,  no centro das Minas, que solidificou as raízes fortes de uma nacionalidade brasileira. Em decorrência dessa crescente consciência de nacionalidade, desde cedo, desde Felipe dos Santos, concebeu-se a liberdade e a independência como bens maiores a vir a ser conquistados. A extinção da escravatura, desejável pelos espíritos mais lúcidos, só muito mais tarde veio a ser conquistada.
Tarcísio nos oferece um estarrecedor, porém veraz retrato de Minas e do Brasil.
Como povo, como nação, com suas patranhas e mazelas, que, sórdidas, permanecem ainda hoje, na prática política do exercício do poder, peando o Brasil de tornar-se uma nação mais digna e mais honesta para com seu povo. Herança plúmbea, maldita.
Se Eros é o mercurial agente da trampolinagem e da pirlimpsiquice entre os homens, é o Poder o verdadeiro horror, o coração das trevas, que, não raro, mergulha os homens nos infortúnios da vida política e social.
Tarcísio pegou um mote e partiu...
Aprendeu a aprender como descobrir pepitas e brilhos preciosos, calhordamente escondidos pela documentação avassaladora soterradora das verdades históricas, camuflada pelas elites brancas reinóis vitoriosas. É lá! Lá mesmo, em seus arquivos que se encontram as incongruências, as mentiras e as contradições. Tarcísio pegou um sonho e partiu. Tornou-se um guerreiro, com terras e gentes e fatos a conquistar. Há um fogo em seu relato, uma brasa dura, um fogo de denúncia e de revelação de fatos históricos vivenciados pelos vencidos. Um fogo de não se apagar.
E hoje, sua ciclópica obra, depois de tantas batalhas, é o que ele tem para mostrar. O pé posto no pó dourado e na lama dos ladrões da História, é o que ele tem para contar em sua admirável trilogia.
  Quilombo do Campo Grande
 História de Minas roubada ao povo, de 1995;
 Quilombo do Campo Grande
 História de Minas que se devolve ao povo, de 2008;
e agora, o fecho da abóbada, o cume majestoso de suas incansáveis andanças,
 Quilombo do Campo Grande
Ladrões da História,

O moleque menino de Moema acabou de chegar. Nessa cama ele quer sonhar/descansar.
Amanhã Tarcísio José Martins bota a perna no mundo das verdades históricas.
Pois esse é que é o seu lugar!
Em Quilombo do Campo Grande – Ladrões da História, o vero historiador mineiro denuncia a maldade e a falsidade de governadores mineiros. Gomes Freire de Andrade e Luis da Cunha Menezes, o Fanfarrão Minésio. Isso, destrinchando a megalomania de Inácio Correia Pamplona.
Este, ávido de benesses, invejoso de feitos de Bartolomeu Bueno do Prado, tornou-se mendaz e falsário, ladrão da história, falseando seus feitos, seus malfeitos e seus não-feitos.
Tarcísio resgata com precisão, baseado em acuradas pesquisas em fontes primárias da História, hoje amplamente disponíveis graças a seu trabalho de arrolamento e indicação, que Inácio adulterou datas, fatos e sítios geográficos à sua conveniência, para seu engrandecimento.
Tarcísio restaura a localização do Primeiro Quilombo do Campo Grande, liderado pelo Negro Rei Ambrósio, em Cristais-MG.
Tal quilombo foi atacado por Antônio João de Oliveira em 1746. O ataque de 1759, e não de 1769, foi feito por Bartolomeu Bueno da Prado, aí sim, dentro do Triângulo Mineiro. Questiona, além disto, o croqui do Quilombo do Ambrósio atribuído por Pamplona à região de Ibiá-MG.
O desmantelamento da história tida por oficial dos quilombos mineiros é reiterada e convincentemente urdida por Tarcísio.
A partir disso, daí, Tarcísio desconstrói, com rigor, com dureza, porém com justeza, a má história oficial posta em circulação por historiadores que ele chama de sem-geografia, como Hildebrando Pontes, Waldemar de Almeida Barbosa, José Pedro Xavier da Veiga, Augusto de Lima e Diogo de Vasconcelos. Secundados por doutores professores da USP e da UFMG.
Eivado com a indignação dos espoliados, Tarcísio os chama de Ladrões da História da Confederação Quilombola do Campo Grande.
Assim, Tarcísio José Martins recupera para Minas, para o Brasil, a versão histórica daqueles vencidos, por serem os deserdados da Terra: os oprimidos, os destituídos e os segregados das benesses da sociedade.
A História dos povos nunca é tão linda e tão puramente ética quanto sai nos livros escolares.
Antes, no duro e no real, a História é um entretecido que se refaz ao desfazer-se para trás, em um tecido confeccionado à posteriori, à luz de novos dados e de novas versões compostas por espíritos mais lúcidos.

(*) MARCO AURELIO BAGGIO

PRESIDENTE EMÉRITO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS

PRESIDENTE DA SOBRAMES – SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES
BELO HORIZONTE, 1º DE ABRIL DE 2011

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