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Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi  (MS) - Localização e Medidas

 ©Copyright a Tarcísio José Martins

 

             Dezenas de autores já escreveram a triste história dessa  fortaleza – anos de 1767 a 1777 – mandada construir pelo Morgado de Mateus, Dom Luís Antônio de Souza Botelho, primeiro governador da renascida Capitania de São Paulo que, no período de 1748 a 1765, estivera extinta pela inveja reinol e pelo ódio que o genocida Gomes Freire de Andrade sempre teve dos paulistas.

            Os autores, em geral, dizem que quem construiu essa fortaleza fora a “Coroa Portuguesa”, alegação também preconceituosa, para esconder o fato de que quem construiu essa fortaleza, quase sem ferramentas e praticamente “com as unhas”, foram os mesmos paulistas. Depois de 17 anos sem Capitania e sem Pátria, o Morgado de Mateus, a partir de 1767, passou a sojigar os oprimidos paulistas  em milícias ou forças pseudo militares e/ou como povoadores para aquela futura povoação, antes mesmo que ela existisse. Caso o recrutado se recusasse à “convocação”, era considerado criminoso, com a consequente prisão de seus pais e outros parentes, além de outras penas violentas.

            O pioneiro chefe regente da povoação foi o também paulista, João Martins Barros, sucedido por outros indicados pelo Morgado de Mateus e por seu sucessor. A fortificação da praça teve início com o engenheiro Capitão João Álvares (e não Alves) Ferreira que delineou a sua primeira planta, que encontramos nos documentos paulistas do Ultramar (23.07.1768 – AHU-SP, Cx. 25, Doc. 2432, p. 067, fato confirmado até mesmo por Teotônio José Juzarte. Esta é a planta do Capitão João Álvares Ferreira.

Planta criada e delineada pelo Capitão João Àlvares Ferreira - 23.07.1768 – AHU-SP, Cx. 25, Doc. 2432, p. 067

         Posteriormente, após 13.06.1769, a planta do Capitão João Álvares foi melhor delineada e a fortificação terminada, conforme novos desenhos feitos por Teotônio José Juzarte e pelo Brigadeiro José Custódio de Sá e Farias.

Novo desenho da mesma planta da Fortaleza – provavelmente de Juzarte

              Vítimas de grandes trabalhos, miséria material, fome e doenças, cerca de dois mil paulistas morreram e foram enterrados dentro e fora da Praça Fortificada. O vaidoso e desumano Morgado de Mateus procurou sempre repor a população daquela Praça, através de mais prisões e apenamentos aplicados somente aos desgraçados paulistas.

            O sucessor do Morgado de Mateus, seu inimigo figadal e também egocêntrico, desumano e vaidoso, decidiu levar mais sofrimento e miséria àquela Praça, deixando-a quase sem munição e sem comida, provocando sua queda e rendição aos espanhóis em 1777. Por outras razões históricas, pouco tempo depois aquele território voltaria a pertencer ao Brasil.

            Por volta de 1990-1992, cerca de 900 índios, através do Decreto de 1º de outubro de 1993, assinado pelo então presidente Itamar Franco, obtiveram a homologação da demarcação administrativa de uma enorme área a que deram o nome de “Área Indígena Takuaraty Yvykuarusu”, contendo ao seu Sul as ruínas da Fortaleza do Iguatemi, onde estão enterrados os restos mortais de cerca de  dois mil paulistas, História completamente ignorada por todas as autoridades envolvidas, assim como a comprovação da real presença daquela etnia, ali, durante os anos setecentos.

            A localização da Fortaleza, pelas indicações dos navegadores que até ali chegaram, sem dúvida seria à margem esquerda do rio Iguatemi, em volta das coordenadas (Google Earth) 23º47’23.74”S e 55º11’08.64”O, como se vê da imagem abaixo: 

             Mas, quais seriam as suas medidas?

            Ao chegar no local, Juzarte escreveu que a Praça estava “situada sobre o barranco do Rio Iguatemi o qual terá de largura oito braças[1] (17,60 mts)”. Percebe-se dos textos dos demais autores que esta seria a medida de um dos lados da Fortaleza. Ninguém afirma; mas insinuam apenas essa medida aproximada para o todo da Fortaleza.

            Ora, até aquele cercado em forma de retângulo, dentro da imagem acima, que seria uma “escola indígena” é muito maior, pois tem 51 metros x 68 metros (23 x 31 braças).

            Continuando a análise: o mesmo Teotônio Juzarte, na continuação da frase acima, acresceu que a Praça continuava “daí para cima, cada vez vai a menos até se perder na Campanha” e que ela fora delineada pelo Capitão João Álvares Ferreira e que “sua figura era de heptágono tinha sete lados; três Tenalhas regulares, e quatro irregulares”.

            As informações acima, além de algumas outras, indicam que a Fortaleza era bem maior, mas sem uma definição cabal de seus números.

           Porém, vimos que essa definição é claríssima no desenho da plantas colocadas ao início desse artigo. Essas plantas têm, ao lado, um petipé, ou seja, uma “escala ou régua com divisões, utilizada por arquitetos; uma “escala de reduções em mapas e cartas”, no caso, uma com escala de 120 e outra 80 braças, com divisões, respectivamente, de 20 em 20 e de 10 em 10 braças. Ou seja, para se saber a medida da planta, basta transportar esse petipé – na mesma medida – para uma régua comum e medir o próprio desenho, feito nessa mesma escala. Assim, usando essa “régua”, constatamos que o desenho traduz uma medição das pontas dos baluartes: norte-sul e leste-oeste (+ou-) de 220 braças ou 484 metros, respectivamente; a medida parede a parede das junções dos baluartes atinge (+ou-) 165 braças ou 363 metros.

            Mas, e a imagem física dessa Fortaleza? Onde estaria e qual seria a sua medida real?

            Mais uma vez, recorremos ao Google Earth. Clicando o terceiro item “visualizar” contido no canto superior esquerdo da imagem, clicando a palavra “imagens históricas”, surge logo abaixo uma régua indicando a existência de imagens diferentes, relativas ao período de 1985 a 2023. Repassando-se essas imagens, vê-se que o retângulo da tal “escola indígena” não existia e deve ter sido construído entre os anos de 2007 e 2018.

            A imagem de 2018, demonstra claramente um estranho conjunto de linhas que, sem dúvida, não poderiam ter surgido aleatoriamente. Vejamos:

            Resolvemos sobrepor os riscos da planta de Juzarte sobre os riscos existentes na imagem Google Earth de 2018 e foi notória a total coincidência. Confira: Alguma dúvida?

 

            Mesmo a imagem mais recente, de 2023, sabida a sequência de alterações, os resquícios da exata localização da Fortaleza ainda são evidentes. Confira:

            A régua específica do Google Earth, entre seus outros instrumentos de medição de distâncias, tem precisão milimétrica. Caso queira aferir, visualize o terreno de sua casa ou de outro lugar de que saiba a medida, faça a medição da imagem Google Earth e  compare. Vai constatar que a precisão é quase total.

            Isto posto, veja a medida que fizemos a partir dos riscos-resquícios da imagem de 09.10.2023. Confira:

            Como se comprova, as medidas acima são praticamente as mesmas indicadas por uma planta cujo petipé em braças foi calculado e desenhado entre 1770-1774.

            Como se vê na imagem de 09.10.2023, a ocupação “Takuaraty Yvykuarusu”, abrange área Norte-Sul de 3,33 kms e, de Oeste-Leste de mais de 7,5 kms. Só recentemente é que passou a ocupar a pequena área Histórica da antiga Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres do Iguatemi, com sua alegada “escola indígena”, cuja frequência, exigiria que seus alunos caminhassem diariamente quilômetros e quilômetros de distância, o que leva à interpretação lógica de uma recente retaliação contra a descoberta dos Historiadores e tentativa de tombamento por parte do IPHAN. Confira.

            Como se vê acima o Forte Iguatemi representa menos da metade de 1% de toda a terra "Takuaraty Yvykuarusu". Comparando as imagens de 2004 a 2023, nota-se que essa ocupação tem destruído paulatinamente até as demarcações dos “muros”, bem como, de casas e outras construções – como mostram as plantas históricas – no interior da Histórica Fortaleza, restando disto, em 2023, evidências claras também documentadas pelas imagens abaixo do Google Earth. Como estará essa paisagem atualmente?

            Assim, mesmo sem a consumação de um Tombamento devido nos termos dos artigos 215 a 216/A da Constituição Federal de 1988, poderia estar havendo de forma continuada, em tese, por parte de nossas autoridades responsáveis, a maioria das infrações previstas no artigo 2º e demais artigos da Lei de Crimes Ambientais (9.605/98); no caso, agravadas pela informação de que esse povo proíbe a visita dos brasileiros comuns a este importante Monumento Histórico, sem se falar no labéu imposto à memória dos cerca de dois mil paulistas, cujos restos mortais estão depositados em algum lugar dessa mesma terra.

            São Paulo, primavera do ano de 2026.

 

© - Tarcísio José Martins

Advogado, pesquisador e historiador

 

[1] 13.06.1769 - Teotônio José Juzarte, em Relatos Monçoeiros, p. 276.